Há uma frase num texto clássico de Medicina Tradicional Chinesa que me acompanha todos os verões.
Quando a li há quase 30 anos, tinha um significado mais complexo, mais rebuscado — e que com o tempo tem ficado cada vez mais claro, mais simples. Porque no passado a mentalidade de quem escrevia estes textos era virada para o essencial, para algo com o mínimo ruído possível.
O Livro do Imperador Amarelo — o texto fundador da Medicina Tradicional Chinesa, escrito há mais de dois mil anos — descreve o verão com uma frase que continua actual:
“Não deve deixar que o sol lhe provoque cansaço.”
O cansaço que o calor pode provocar não é inevitável. É uma resposta do corpo a uma gestão inadequada da energia nesta estação.
Ao mesmo tempo, uma observação que nos pode ajudar a perceber em nós como estamos mais ou menos em harmonia com esta estação.
O que os clássicos sugerem — sem usar a linguagem da fisiologia moderna — é que existe uma forma de atravessar o verão sem ser esgotado por ele.
O que o verão pede ao coração
Na Medicina Tradicional Chinesa, o verão é a estação do coração.
O mesmo texto é claro sobre o que acontece quando não respeitamos esta estação:
“Opor-se resultará em desequilíbrios no coração.”
Não é metáfora. É fisiologia.
Os dados modernos confirmam o que os clássicos observaram: durante as ondas de calor, as mortes por causas cardiovasculares aumentam significativamente. O calor exige mais do coração — e quando esse esforço não é gerido, o corpo pode sofrer ou mesmo colapsar em casos mais extremos.
O que raramente é trazido para cima da mesa é que grande parte desse esforço adicional não vem apenas do calor externo. Vem da forma como respondemos a ele.
Quando o calor sobe, o corpo tende a respirar mais rápido — uma tentativa instintiva de dissipar o calor. Mas essa aceleração tem um custo: o coração esforça-se mais, os vasos sanguíneos contraem, e o sistema nervoso entra em modo de alerta. O calor por dentro aumenta em vez de diminuir.
É exactamente o oposto do que a estação pede.
O caminho inverso também existe e está disponível em qualquer momento.
Quando se abranda a respiração — especialmente quando se prolonga a expiração — o coração abranda também. O nervo vago é activado. O processo anti-inflamatório natural do corpo é desencadeado. E o sistema começa a regular a temperatura de dentro para fora.
Não é magia. É o que o corpo faz quando lhe damos as condições certas.
O Livro do Imperador Amarelo descreve este princípio de uma forma que a fisiologia moderna confirmaria:
“O fluir da energia vital deve ser assistido, deve ser permitida a sua comunicação com o mundo exterior.”
A respiração é essa assistência. É a forma mais directa de comunicar ao corpo que pode abrandar — mesmo quando o calor lá fora não abranda.
“Não deve deixar que o sol lhe provoque cansaço.”
Ainda há tempo para que este verão seja diferente e realmente nutritivo.
Até para a semana.
Boas práticas
Lourenço de Azevedo